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PRIMAVERA

Abrindo de par em par
as portas do palácio:
A PRIMAVERA

Uma velha sem dentes
que rejuvenesce —
cerejeira em flor

Apesar da névoa
mesmo assim é belo
o Monte Fuji

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

Na baía de Wakanoura
caminhando lado a lado
com a primavera

Cansado de caminhar
alojei-me
entre as glicínias

Brisa ligeira
A sombra da glinícia
estreme

Uma rã mergulha
no velho tanque…
O ruído da água

Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores

Primavera:
neblina matinal sobre
uma montanha sem nome

Acorda acorda
Serás a minha companheira
borboleta que dormes

Ibisco na berma —
Floresce agora
na boca do cavalo

Chuva de flores de ameixeira
Um corvo procura em vão
o seu ninho

Calou-se o sino
O que chega a mim agora é eco
das flores

Diante das azáleas
uma mulher prepara
bacalhaus secos

De que árvore em flor
não sei —
Mas que perfume

A cada sopro do vento
muda de folha
a borboleta no salgueiro

A uma papoila
deixa as asas a borboleta
como recordação

Não há arroz
mas tenho na malga
uma flor

Flores de cerejeira no céu escuro
e entre elas a melancolia
quase a florir

Rio Mogami —
apascentando as chuvas de Maio
até ao mar

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia

Ervas daninhas no arrozal
Depois de cortadas —
fertilizante

Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos a tempos

Flores queimadas pela geada
Os grãos caídos
semeiam e tristeza

depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes

[Matsuo Bashô, "O Gosto Solitário do Orvalho" (Trad. Jorge Sousa Braga)]

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