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Arquivos mensais: Abril 2011

Primavera

A Primavera vem dançando
com os seus dedos de mistério e turquesa
Vem vestida de meio dia e vem valsando
entre os braços dum vento sem firmeza

Nu como a água o teu corpo quieto e ausente
Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso
Loiro o rosto o olhar não sei se mente
se de tão negro e parado é um aviso
do destino que me fixa finalmente

Ai, a Primavera vai passando
com os seus dedos de mistério e de turquesa
Segue Primavera vai cantando
Que será do nosso amor nesta praia de incerteza

[Urbano Tavares Rodrigues, "Horas de Vidro"]

POSSIBILIDADES

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os cavalos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque tenho os olhos escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los num fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.

[Wislawa Szymborska, "Rosa do Mundo" (Trad. Aleksandar Jovanovich e Henry Siewierski)]

PRIMAVERA

Abrindo de par em par
as portas do palácio:
A PRIMAVERA

Uma velha sem dentes
que rejuvenesce —
cerejeira em flor

Apesar da névoa
mesmo assim é belo
o Monte Fuji

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho

Na baía de Wakanoura
caminhando lado a lado
com a primavera

Cansado de caminhar
alojei-me
entre as glicínias

Brisa ligeira
A sombra da glinícia
estreme

Uma rã mergulha
no velho tanque…
O ruído da água

Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores

Primavera:
neblina matinal sobre
uma montanha sem nome

Acorda acorda
Serás a minha companheira
borboleta que dormes

Ibisco na berma —
Floresce agora
na boca do cavalo

Chuva de flores de ameixeira
Um corvo procura em vão
o seu ninho

Calou-se o sino
O que chega a mim agora é eco
das flores

Diante das azáleas
uma mulher prepara
bacalhaus secos

De que árvore em flor
não sei —
Mas que perfume

A cada sopro do vento
muda de folha
a borboleta no salgueiro

A uma papoila
deixa as asas a borboleta
como recordação

Não há arroz
mas tenho na malga
uma flor

Flores de cerejeira no céu escuro
e entre elas a melancolia
quase a florir

Rio Mogami —
apascentando as chuvas de Maio
até ao mar

Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia

Ervas daninhas no arrozal
Depois de cortadas —
fertilizante

Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos a tempos

Flores queimadas pela geada
Os grãos caídos
semeiam e tristeza

depressa se vai a primavera
Choram os pássaros e há lágrimas
nos olhos dos peixes

[Matsuo Bashô, "O Gosto Solitário do Orvalho" (Trad. Jorge Sousa Braga)]

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