GRELHA DE LINGUAGEM
O círculo dos olhos entre as barras.
Animal vibrátil a pálpebra
rema para cima,
desoculta um olhar.
Íris, nadadora, sem sonhos, e turva:
o céu, cinzento-coração, deve estar perto.
Oblíqua, no bico de ferro,
a apara fumegante.
Pelo sentido da luz
adivinhas a alma.
(Fosse eu como tu. Fosses tu como eu.
Não estivemos nós
sob uma mesma monção?
Somos estranhos.)
Os ladrilhos. Sobre eles,
bem juntas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
bocas cheias de silêncio.
[Paul Celan, "Sete Rosas Mais Tarde" (Trad. João Barrento)]